Universidade Federal do Ceará - Departamento de História

Doutorado

 


Universidade Federal do Ceará
Centro de Hunanidades
Departamento de História

 

Programa de Pós-Graduação em História
(mestrado e doutorado)

 

Área de Concentração:
História Social

 

Adotar os pressupostos básicos dos estudos da História Social significa desenvolver procedimentos interpretativos que possibilitem estudar as formas pelas quais os sujeitos constituem seus modos de viver. Entende-se, assim, que a cultura se faz na experiência dos enfrentamentos cotidianos, nas tensões e nos conflitos, nos consensos e dissensos socialmente engendrados, em criações e apropriações desenvolvidas como táticas e estratégias de poder. Desse modo, a cultura não é simplesmente um "esquema de percepção", regido por determinações atemporais ou lógicas abstratas. Entende-se que a cultura se faz na medida em que são vivenciadas as tramas da vida social.
Entre mudanças e permanências, as configurações culturais são práticas que se constituem em movimentos e situações envolvidas em relações de poder, como: pensamentos, idéias, sentimentos, reciprocidades, interesses, legitimidades, tradições, expectativas, narrativas, organizações familiares e de parentesco, relações de trabalho, exercícios de dominação e resistência, necessidades e valores. Se as relações que os homens estabelecem entre si e com a natureza se fazem e se recriam como composições de sentido, entendemos que não se pode separar os aspectos sociais e políticos de outros aspectos da existência humana, como suas idéias e crenças.
Trata-se de buscar compreender, a partir da configuração de objetos,  pesquisa e recortes temáticos, todo um conjunto de práticas sociais vinculadas às estruturas e experiências históricas, enfocando as especificidades das fontes históricas e  desenvolvendo procedimentos próprios para interpretá-las. Isso significa que o ato de pesquisar deve realimentar uma reflexão contínua acerca da teoria como princípio organizativo do conhecimento. História Social, nesse sentido, pressupõe uma constante atividade crítica sobre os modos pelos quais os vestígios do passado são transformados em fontes históricas. A construção de recortes em torno das experiências sociais passam necessariamente por critérios metodológicos que devem ser explicitados e avaliados em suas conexões com as possibilidades de (re)construção do conhecimento. Está em pauta, portanto, não somente o resultado da pesquisa, mas como se tornam possíveis as articulações que geram a própria escrita da história. Assim, a Área de Concentração em História Social parte de problematizações sobre as experiências de sujeitos historicamente localizados, sem desprezar a própria historicidade desses conceitos, entendendo que se torna imprescindível perceber que os termos Social, Sujeito e História possuem trajetórias, não são categorias fora do tempo e, portanto, fazem parte das disputas através das quais as vias de entendimento sobre o passado foram se estabelecendo. Subjacente a esses supostos, é preciso considerar as tessituras culturais como construções ligadas aos trabalhos da memória, que, a partir de um complexo jogo de forças sociais, estão envolvidos em tramas de lembranças e esquecimentos.

Linhas de Pesquisa

1. Cultura e poder
A linha de pesquisa produz conhecimento em torno das práticas culturais que se constituem na vivência das relações sociais. As experiências dos sujeitos são enfocadas como um campo de conflitos e tensões, marcado por várias táticas e estratégias de poder. Trabalhar com Cultura e Poder envolve um esforço de estudar a historicidade de valores, costumes, crenças, normas, expectativas, tradições, ideias, ideais e sensibilidades que se configuram nas mudanças e permanências da vida social. Entendendo que a cultura se faz no modo de viver de sujeitos historicamente situados, inclui-se nessa linha de pesquisa o estudo sobre a produção de significados. É nesse sentido que se desenvolvem reflexões sobre a especificidade das linguagens. Os estudos sobre linguagens que vêm sendo desenvolvidos permitem a retomada dessa relação entre Cultura e Poder à luz das especificidades da experiência social em que se situam. Nessa direção, a linha contempla abordagens em torno de reflexões sobre escritas, oralidades e imagens, considerando que, a partir dessas linguagens e de determinadas questões, abre-se um fértil campo de problematizações para a investigação das experiências sociais. Entende-se, portanto, que há exigências específicas para o desenvolvimento de procedimentos interpretativos que levam em consideração os lugares de produção e consumo, com destaque para a historicidade das técnicas e dos materiais utilizados nas mais variadas formas de expressão cultural. Interessa a realização de pesquisas sobre as muitas relações entre a oralidade, o escrito e as imagens, e sobre os modos pelos quais as fronteiras entre essas manifestações foram compostas em determinadas circunstâncias. Importa trabalhar com a diversidade das configurações de saberes não somente em espaços institucionais ou oficiais, mas também com a multiplicidade de conhecimentos mais vinculados aos anseios e necessidades da vida cotidiana. Nesse sentido, a constituição social de temporalidades também ganha importância, abrangendo as variadas vias de composição dos lugares de memória, em sua ampla diversidade, que vai da dinâmica mais institucional ou administrativa aos movimentos da invenção do cotidiano.
As composições de sentidos para o passado, a partir de variados territórios e múltiplas relações, tornam-se campo de investigação intimamente relacionado com as vias pelas quais sujeitos históricos (re)criam e experimentam as dinâmicas de cultura e poder nas relações sociais. Outro campo de interesse é a configuração de espaços, em uma perspectiva que trabalha com as formas pelas quais sujeitos constroem espacialidades, na medida em que vivenciam valores e sensibilidades enredadas em tensões sociais. Nesse sentido, há um extenso leque de questões que envolvem o campo, a cidade e suas múltiplas relações, como os estudos sobre os imaginários do (e em torno do) Sertão, as memórias e as sociabilidades do espaço urbano e rural ou a formação de lugares sagrados, monumentos, festas e comemorações. Desse modo, a linha pressupõe que as práticas culturais se constituem em relações de poder, por meio de situações que envolvem variadas maneiras de delimitar tempos e espaços, vividos ou desejados, mas sempre localizados em um jogo de tensões diante de outras vivências. Trata-se de uma perspectiva que, ao estudar os significados, entende-os nas especificidades de seus suportes materiais (físicos) e nos modos pelos quais essas materialidades ganham suas existências, como partes constitutivas das lutas em torno de ideias e valores. Ganha relevância, nessa perspectiva, a investigação sobre os limites e as conexões entre as escritas da história e os trabalhos da memória.


2. Trabalho e migrações
Entende-se que as relações de trabalho constituem-se num campo permeado por jogos de poder, nos quais sujeitos historicamente situados criam e recriam (ou reafirmam e ressignificam) suas tradições, fazendo-se entre mudanças e permanências, entre negociações e conflitos. Desse modo, o trabalho, entendido não somente como relações de produção, diz respeito às experiências das camadas populares em múltiplas dimensões do viver - movimentos reivindicatórios, lutas por direitos sociais e políticos,expressões artísticas, rituais, lazer, organizações comunitárias e familiares. Os estudos dessas temáticas variadas - ligadas não apenas às formas institucionais de organização do trabalho e dos trabalhadores, seja na fábrica, no sertão, nos partidos, nos sindicatos, nos diferentes movimentos sociais urbanos e rurais, seja nas políticas públicas e nas ações do Estado gestadas ou decorrentes destes movimentos – trazem para o terreno das experiências humanas os temas mais universais do Trabalho como dimensão constitutiva fundamental da vida. Nessa linha de preocupações, o espaço não é apenas demarcação física, mas deve ser compreendido como território instituído a partir de construções que acontecem nas relações sociais. Por outro lado, as migrações e a convivência com ambientes culturais diferentes e/ou conflitantes são elementos constituintes da formação dos mundos do trabalho nas sociedades modernas. Assim, a experiência das migrações, ao mesmo tempo em que transforma espacialidades, se associa intimamente às trocas culturais, com seus ganhos e perdas, criações e recriações, em que significados tradicionais impregnam formas novas, assim como formas tradicionais se recompõem em novos significados, ampliando – se não mesmo dilacerando - a noção de fronteira. Os migrantes carregam consigo tradições, formas de percepção sobre o poder, sobre o homem e sobre o cosmos, experiências de lutas, símbolos, imagens, religiosidades e, enfim, uma história que ultrapassa os limites formais, institucionais ou político-administrativas. As relações sociais de trabalho, assim como os movimentos migratórios, abrem novas perspectivas de investigação por entendermos, inclusive, que esses processos migratórios constituem experiências sociais que perpassam a sociedade em vários planos. Pensando dessa forma as relações de trabalho, habilitamo-nos a desenvolver temáticas que problematizam modos de vida e de trabalho (na cidade e no campo) e os movimentos migratórios que historicamente têm marcado nossa experiência social.
 Estudar os mundos do trabalho e as migrações significa abrir um amplo rol de possibilidades interpretativas em torno das vivências constituídas em períodos de estiagens (ou enchentes), nas epidemias, nas doenças e nas maneiras de tratá-las, nas políticas públicas de saúde, nas estruturas de poder vinculadas à estrutura fundiária, nos relacionamentos com o meio ambiente, ou nas várias dimensões do crescimento das cidades, como a formação da classe operária e as múltiplas táticas de sobrevivência de homens e mulheres enredados na pobreza. Importa, por outro lado, desenvolver abordagens interpretativas sobre a historicidade das composições entre natureza e cultura, com especial atenção para movimentos e situações de trabalhadores diante do chamado "mundo natural", em áreas rurais e urbanas. Leva-se em consideração que a realização de estudos em torno do meio ambiente implica problemáticas que envolvem relações de poder não somente nas políticas institucionais, mas também nas vivências cotidianas, na própria experiência de sujeitos historicamente situados, que criam e recriam tensões e fronteiras para seus relacionamentos com a natureza, delimitando-a e constituindo-a das mais variadas maneiras.

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